sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Você sabe a diferença entre Movimento Popular e Movimento Social?

Então,confira!

O Movimento Popular é uma designação dada por seus próprios militantes, diferente do
conceito de movimento social criado pela sociologia, o movimento popular é fruto das
contradições sociais e econômicas do sistema capitalista, podendo o movimento popular ser
um agrupamento de comunidades carentes que ocupam uma área urbana, como também
ele não pode ser um movimento de classes abastadas que estão defendendo uma pauta
propositiva como os movimentos ambientais e GLS.

Em suma, o Movimento Popular é um sujeito coletivo oriundo das contradições econômicas do
sistema capitalista e em confronto com esse sistema, é um movimento não institucionalizado
e é formado pelas camadas pobres. O Movimento Popular não é um sujeito histórico fruto da
estrutura econômica, mas fruto das condições subjetivas dessa estrutura.

Movimento social é uma expressão técnicamente usada para denominar movimentos feitos
por pessoas sociais e pela sociedade.Um movimento social é como se fosse uma denuncia
de algo que acontece em uma sociedade, e propõe melhorias (reivindicações). A categoria
é ampla e pode congregar, dependendo dos critérios de análise empregados, organizações
voltadas para a promoção de interesses morais, éticos e legais (v.g. entidades voltadas para a
defesa de direitos humanos ou de prerrogativas análogas ou, em outro extremo, a alteração
radical e/ou violenta de ordens e sistemas normativos, políticos ou econômicos vigentes, sob a
égide dos mais variados suportes ideológicos). A realidade dos movimentos sociais é bastante
dinâmica e nem sempre as teorizações têm acompanhado esse dinamismo.

Apesar do movimento social ser fruto de determinados contextos históricos e sociais, duas
definições conceituais clássicas podem ser encontradas no objetivo de acrescer à questão.
A primeira delas é a de controle de ação histórica de Alain Touraine, ou seja, para ele, os
movimentos sociais são a ação conflitante dos agentes das classes sociais (luta de classes).
Já para Manuel Castells, movimentos sociais são sistemas de práticas sociais contraditórias
de acordo com a ordem social urbana/rural, cuja natureza é a de transformar a estrutura do
sistema, seja através de ações revolucionárias ou não, numa correlação classista e em última
instância, o poder estatal.

Segundo Scherer-Warren, pode-se, portanto, concluir que a sociedade civil é a representação
de vários níveis de como os interesses e os valores da cidadania se organizam em cada
sociedade para encaminhamento de suas ações em prol de políticas sociais e públicas,
protestos sociais, manifestações simbólicas e pressões políticas. Num primeiro nível,
encontramos o associativismo local, como as associações civis, os movimentos comunitários
e sujeitos sociais envolvidos com causas sociais ou culturais do cotidiano, ou voltados a essas
bases, como são algumas Organizações Não-Governamentais (ONGs), o terceiro setor. Para
citar apenas alguns exemplos dessas organizações localizadas: núcleos dos movimentos de
sem-terra, sem-teto, piqueteiros, empreendimentos solidários, associações de bairro, etc.
As organizações locais também vêm buscando se organizar nacionalmente e, na medida do
possível, participar de redes transnacionais de movimentos (Movimento dos Trabalhadores
Rurais Sem Terra, Movimento dos Catadores de Lixo, Movimento Indígena, Movimento Negro,
etc.), ou através de articulações inter-organizacionais.

Observa-se que as mobilizações na esfera pública são fruto da articulação de atores dos

movimentos sociais localizados, das ONGs, dos fóruns e redes de redes, mas buscam
transcendê-los por meio de grandes manifestações na praça pública, incluindo a participação
de simpatizantes, com a finalidade de produzir visibilidade através da mídia e efeitos
simbólicos para os próprios manifestantes (no sentido político-pedagógico) e para a sociedade
em geral, como uma forma de pressão política das mais expressivas no espaço público
contemporâneo. Alguns exemplos ilustram essa forma de organização, incluindo vários setores
de participantes: a Marcha Nacional pela Reforma Agrária, de Goiânia a Brasília (maio de
2005), foi organizada por articulações de base como a Comissão Pastoral da Terra (CPT), o
Grito dos Excluídos e o próprio MST e por outras, transnacionais, como a Via Campesina.

A Parada do Orgulho Gay tem aumentado expressivamente a cada ano, desde seu início
em 1995 no Rio de Janeiro, fortalecendo-se através de redes nacionais, como a ABGLT, de
grupos locais e simpatizantes. A Marcha da Reforma Urbana, em Brasília (outubro de 2005),
resultou não só da articulação de organizações de base urbana (Sem Teto e outras), mas
também de uma integração mais ampla com a Plataforma Brasileira de Ação Global contra
a Pobreza. A Marcha Mundial das Mulheres tem sido integrada por organizações civis de
todos os continentes. A Marcha vinculada à III Cúpula dos Povos, em Mar Del Plata (novembro
de 2005), “foi convocada pela Aliança Social Continental, por estudantes, trabalhadores,
artistas, líderes religiosos, representantes das populações indígenas e das mulheres, juristas,
defensores dos direitos humanos, parte desse movimento plural, que, pela terceira vez,
celebra o encontro, após os realizados em Santiago do Chile (1998) e Québec (2001)” A
Marcha Zumbi + 10 desmembrou-se em duas manifestações em Brasília (uma em 16 e outra
em 22 de novembro de 2005), expressando a diversidade de posturas quanto à autonomia em
relação ao Estado.

Em outras palavras, o Movimento Social, em sentido mais amplo, se constitui em torno de
uma identidade ou identificação, da definição de adversários ou opositores e de um projeto ou
programa, num contínuo processo em construção e resulta das múltiplas articulações acima
mencionadas. A idéia de rede de movimento social é, portanto, um conceito de referência que
busca apreender o porvir ou o rumo das ações de movimento, transcendendo as experiências
empíricas, concretas, datadas, localizadas dos sujeitos/atores coletivos.

Do ponto de vista organizacional, inclui várias redes de redes, como por exemplo,
desde a Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais
Quilombolas (CONAQ), criada em 1996, até as organizações das comunidades
locais “mocambos”, “quilombos”, “comunidades negras rurais” e “terras de preto”, que
são várias expressões de uma mesma herança cultural e social, e ONGs e associações que
se identificam com a causa. Do ponto de vista da ação movimentalista, apresenta as várias
dimensões definidoras de um movimento social (identidade, adversário e projeto): unem-se
pela força de uma identidade étnica (negra) e de classe (camponeses pobres) – a identidade;
para combater o legado colonialista, o racismo e a expropriação – o adversário; na luta pela
manutenção de um território que vive sob constante ameaça de invasão, ou seja, pelo direito
à terra comunitária herdada – o projeto. Nesse momento, unem-se também ao Movimento
Nacional pela Reforma Agrária na luta pela terra, mas mantendo sua especificidade, isto é,
pela legalização da posse das terras coletivas.

A transversalidade de direitos na luta pela cidadania

O Fórum Social Mundial (FSM) bem como outros fóruns e redes transnacionais de
organizações têm sido espaços privilegiados para a articulação das lutas por direitos humanos
em suas várias dimensões sociais. Assim, através dessas articulações em rede de movimento
observa-se o debate de temas transversais, relacionados a várias faces da exclusão social,
e a demanda de novos direitos. Essa transversalidade na demanda por direitos implica o
alargamento da concepção de direitos humanos e a ampliação da base das mobilizações.

O ativismo nas redes de movimento

Há um outro tipo de ativismo, que se alicerça nos valores da democracia, da solidariedade
e da cooperação e que vem crescendo significativamente nos últimos anos. Por exemplo, o
Movimento de Economia Solidária, que tem suas expressões empíricas nos empreendimentos
populares solidários, no Fórum Brasileiro de Economia Solidária (FBES) e na Rede de Entidades
Brasileiras de Economia Solidária (REBES), mostrou sua força organizativa no Fórum Social
Mundial de 2005, pelo número de oficinas, experimentos e tendas organizados.

O ativismo de hoje tende a protagonizar um conjunto de ações orientadas aos mais excluídos,
mais discriminados, mais carentes e mais dominados. A nova militância passa por essa nova
forma de ser sujeito/ator.

O empoderamento nos movimentos sociais em rede

Pode-se, enfim, indagar: Nos movimentos sob a forma de redes, as estruturas de poder
se dissolvem? Pressupõe-se, freqüentemente, que, numa organização em rede há uma
distribuição do poder, os centros de poder se democratizam, ou, como há muitos centros (nós/
elos), o poder se redistribui. Isso é parcialmente verdadeiro, porém, mesmo em uma rede há
elos mais fortes (lideranças, mediadores, agentes estratégicos, organizações de referência,
etc.), que detêm maior poder de influência, de direcionamento nas ações, do que outros elos
de conexão da rede. Tais elos são, pois, circuitos relevantes para o empoderamento das redes
de movimento. As redes, assim como qualquer relação social, estão sempre impregnadas
pelo poder, pelo conflito, bem como pelas possibilidades de solidariedade, de reciprocidade
e de compartilhamento. Portanto, o que interessa é saber como se dá o equilíbrio entre essas
tendências antagônicas do social e como possibilitam ou não a autonomia dos sujeitos sociais,
especialmente os mais excluídos e que, freqüentemente, são as denominadas “populações-
alvo” desses mediadores.

Pergunta-se então: Como o trabalho de mediação das ONGs junto aos movimentos de
base local pode ser direcionado ao empoderamento dos sujeitos sociais “socialmente mais
excluídos”, no sentido de não estimular as hierarquias de poder? as seguintes dimensões
sociais merecem estar contempladas para um trabalho de empoderamento democrático e
de inclusão social das bases: o combate à exclusão em suas múltiplas faces e a respectiva
luta por direitos (civis, políticos, socioeconômicos, culturais e ambientais); o reconhecimento
da diversidade dos sujeitos sociais e do respectivo pluralismo das idéias; a promoção da
democracia nos mecanismos de participação no interior das organizações e nos comitês da
esfera pública, criando novas formas de gestão.

Novas formas de gestão na organização em rede

Preparar os sujeitos para se tornarem atores de novas formas de gestão requer a participação
em diversos espaços: mobilizações de base local na esfera pública; empoderamento através

dos fóruns e redes da sociedade civil; participação nos conselhos setoriais de parceria
entre sociedade civil e Estado; e, nos últimos anos, a busca de uma representação ativa nas
conferências nacionais e globais de iniciativa governamental em parcerias com a sociedade
civil organizada.

Nas parcerias entre sociedade civil, Estado e mercado há múltiplas formas de atuação, mas
em termos de participação para a elaboração de políticas públicas, merecem destaque os
conselhos e conferências. Nos conselhos setoriais (popular e/ou paritário) é onde há, pelo
menos teoricamente, um espaço institucional para o encaminhamento de propostas da
sociedade civil para uma nova governança junto à esfera estatal.

A sociedade civil organizada do novo milênio tende a ser uma sociedade de redes
organizacionais, de redes inter-organizacionais e de redes de movimentos e de formação
de parcerias entre as esferas públicas privadas e estatais, criando novos espaços de gestão
com o crescimento da participação cidadã. Essa é a nova utopia do ativismo: mudanças com
engajamento com as causas sociais dos excluídos e discriminados e com defesa da democracia
na diversidade.

Observação: O texto acima é uma compilação de trechos do artigo de Ilse SCHERER-WARREN,
Das Mobilizações às Redes de Movimentos Sociais, Sociedade e Estado, Brasília, v. 21, n.1,
p. 109-130, jan./abr. 2006/2007. Acesso: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0102-
69922006000100007&script=sci_arttext&tlng=pt

Referências bibliográficas

ANJOS, Rafael Sanzio Araújo dos. Territórios das comunidades quilombolas no Brasil – segunda
configuração espacial. Brasília: Mapas Editora & Consultoria, 2005.

CASTELLS, Manuel. The information age: economy, society and culture. London: Blackwell
Publishers, 1996. 3 v.

COHEN, J.; ARATO, A. Civil society and political theory. Cambridge: MIT Press, 1992.

MACHADO, Jorge. Ativismo em rede e conexões identitárias: novas perspectivas para os
movimentos sociais. Sociologias, no.18, Porto Alegre, July/Dec. 2007.

SCHERER-WARREN, Ilse. Das Mobilizações às Redes de Movimentos Sociais, Sociedade e
Estado, Brasília, v. 21, n.1, p. 109-130, jan./abr. 2006/2007. NPMS

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